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Jesus: Kýrios do Kairós e do Chrónos

O Mistério da Encarnação de Jesus faz irromper para a humanidade, que vive sob as curtas rédeas do chrónos, o kairós de Deus. Vivemos em uma ordem “cronológica” (chrónos), submetidos a um tempo que muitas vezes nos escraviza, nos consome, nos sufoca e parece sempre insuficiente. Este chrónos e sua velocidade é percebido nas ocasiões mais diversas e simples, como numa conversa dentro de um ônibus ou num bar, ou numa exclamação nostálgica ao olhar um álbum de família: “Como o tempo está passando rápido!”, e com um gerúndio bem empregado, pois com este tempo é assim: “o que está, já passou”. É um tempo efêmero, ligeiro, evanescente e volátil, como acertadamente canta Lulu Santos em sua música “Tempos Modernos”: “Hoje o tempo voa, amor, escorre pelas mãos”.

Perdemo-nos de tal modo no “relógio do mundo”, passando tão rápido por ele, que quando nos damos conta e olhamos para nós mesmos, nossas mãos não são mais aquelas mãos lisas e macias, mas enrugadas e calejadas; nossos pés nos momentos de caminhar para o gozo após anos de trabalho, já estão cansados e desanimados; nossos olhos já não expressam aquela jovialidade sonhadora e desejosa de viver intensamente, mas, embaçados, só enxergam e percebem que todo aquele rancor, ódio, mágoa, egoísmo, acúmulo e desamor não valeram a pena. É quando percebemos que a nossa vida passou... e foi tão rápido! Bem sintetiza este frenesi temporal o espanto de Dalai Lama com a humanidade, quando diz: “Os homens perdem a saúde para juntarem dinheiro, depois perdem dinheiro para recuperarem a saúde. E por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem do presente de tal forma que acabam por não viverem nem o presente, nem o futuro. E vivem como se nunca fossem morrer; e morrem como se nunca tivessem vivido!”.

É cada vez mais comum escutarmos: "Não tenho tempo!", e de fato, não o temos mesmo. Ninguém o possui, a não ser aquele que o realizou para nós: Jesus Cristo, que com o seu Natal inaugurou em nosso favor um novo tempo, o kairós, entendido como “tempo favorável de graça e salvação”. Tempo para reconhecermo-nos filhos e filhas no Filho, que foi dado ao mundo para salvá-lo, como nos ensina Paulo em sua carta aos Gálatas: “Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a Lei, para resgatar os que estavam sob a Lei, a fim de que recebêssemos a adoção filial.” (Gl 4,4-5). Aquele que é o Kýrios do Kairós e do Chrónos, (Senhor dos Tempos), se submeteu ao “tempo cronológico” para santificá-lo com o “tempo da graça de Deus”, como anuncia na sinagoga de Nazaré: “Eu vim para proclamar o Ano da Graça do Senhor”(Lc 4,19). É o momento de Deus no tempo e na história, o kairós divino na realidade do mundo criado (chrónos).

Deus, inserindo-se no tempo através de Jesus Cristo, pela Encarnação, o santificou e o enriqueceu com sua presença salvadora, fazendo com que todo o tempo se tornasse também tempo de salvação. Em suma, com a encarnação do Filho de Deus, kairós chrónos se fundem em uma maravilhosa simbiose, tornando possível à humanidade o acesso à graça salvífica. É como rezamos belissimamente no Prefácio do Natal III: “Por Ele [Cristo], realiza-se hoje o maravilhoso encontro que nos dá vida nova em plenitude. No momento em que vosso Filho assume nossa fraqueza, a natureza humana recebe uma incomparável dignidade: ao tornar-se Ele um de nós, nós nos tornamos eternos”.

Esta eternidade que se encarna na história é bem apontada no prólogo do evangelho de São João: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós” (1,14). Cristo, o Eterno, se submeteu à realidade temporal humana. Aquele que estava com Deus no princípio e que também era Deus (cf. Jo 1,1-2), “esvaziou-se a si mesmo, (...) fazendo-se semelhante aos homens” (Fl 2,7). A Palavra de Deus assume a temporalidade humana (cronológica) e dá a ela eternidade (kairós), uma vez que, como é anunciado em Mateus: “Céus e terras passarão, mas a minha palavra não passará” (Mt 24,35). Logo, esta Palavra, ainda que submetida ao tempo efêmero, goza de perenidade, e para nós deve sempre ser sinal e caminho para a vida eterna, onde impera, em plenitude, o tempo da graça divina.

“Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo!” (Mc 1,15). Com a chegada de Jesus e seu reinado, o tempo manco da humanidade se completa. Daí ser tão interessante a celebração do ingresso de Deus na história sete dias antes de iniciarmos um novo ano cronológico, significando que é o Mistério da Encarnação que, em sua plenitude (sete, biblicamente, simboliza a plenitude), dá sentido a uma nova etapa do nosso tempo. Este “tempo novo” não pode nos desanimar ou amedrontar! É como compôs Renato Russo em sua alentadora música “Tempo Perdido”: “Todos os dias quando acordo, não tenho mais o tempo que passou, mas tenho muito tempo... Temos todo o tempo do mundo!” Somente em Cristo “temos todo o tempo do mundo”, porque Ele, Senhor (Kýrios) do Tempo, em seu amor infinito nos inseriu na ampulheta da eternidade. Portanto, devemos aprender com o passado sem nos traumatizarmos, para bem vivermos o presente e encaramos, com coragem, o futuro, ajustando os ponteiros de nossas vidas a Jesus, na esperança e certeza de que, a partir d´Ele e como Ele mesmo disse, para nós “o tempo é sempre favorável” (Jo 7,6B). Que o início de um novo ano possa sempre nos animar a sermos, a Seu exemplo, agentes transformadores de chrónos em kairós!

Por Daniel Reis – extraído de www.domtotal.com

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